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segunda-feira, 25 de novembro de 2019

Contribuição ao 7º Congresso Nacional do PT

Companheiros e companheiras,

 

O presente documento que apresento para a sua apreciação contém algumas reflexões pessoais, mas, esclareço que se trata apenas de uma breve preliminar do grande debate conjuntural que deverá ocorrer durante o nosso 7º Congresso Nacional que se realizará nos próximos dias 22, 23 e 24 de novembro, em São Paulo.

O Brasil e o mundo vivem hoje um grande dilema no cenário político e econômico. Em meio às grandes crises financeiras, humanitárias e ambientais que afetam diversas nações, inclusive as desenvolvidas, nós temos assistido nos últimos anos a um impressionante aumento da influência da direita. Mesmo em países onde o centro ou a esquerda alcançaram a vitória nos pleitos, constata-se ao mesmo tempo um preocupante aumento da popularidade da direita e/ou da extrema-direita, inclusive de organizações de inspiração ultranacionalista e mesmo nazista.

Infelizmente, a esquerda mundial, com reflexos importantes aqui no Brasil, parece que ainda não encontrou um eixo comum, um projeto alternativo, para convencer e consolidar a sua representação nas instituições democráticas mundo afora. Este é um debate que deve ser feito com urgência também por nós. Paralelamente a isso temos assistido nas últimas semanas a uma grande agitação política e social em países da América Latina. A revolta popular no Chile contra o governo neoliberal e as manifestações populares no Equador contra as iniciativas antipovo do seu atual governo são bons exemplos de mobilização social. Ao mesmo tempo em que assistimos indignados ao golpe na vizinha Bolívia que, com respaldo vergonhoso do governo brasileiro e dos Estados Unidos, derrubou o então presidente Evo Morales, reeleito democraticamente pelas urnas. O PT repudiou e denunciou o fato à comunidade internacional.

Mas também tivemos a felicidade de assistir à expressiva vitória de Alberto Fernandez e Cristina Kirchner na Argentina, com a derrota do governo neoliberal fracassado de Macri, antes aclamado pela mídia conservadora brasileira. E no Uruguai esperamos que a coisa também caminhe para mais uma vitória da esquerda. São resultados que nos trazem um certo alento, mas também acendem um alerta sobre o poder de manipulação da direita, principalmente nas redes sociais.

Outro fato gravíssimo na conjuntura mundial e, especificamente no Brasil, é o atual aumento da desigualdade social e econômica, com a queda do poder aquisitivo da população. No Brasil, a situação torna-se ainda mais preocupante e dramática, pois após a superação da extrema pobreza durante os governos petistas, agora assistimos perplexos e até mesmo impotentes, ao retorno do Brasil ao mapa da miséria. Mas se a tônica do atual governo extremista é “desconstruir tudo”, conforme bradava no palanque o então candidato que venceu as eleições, o que dizer frente a este cenário de destruição das conquistas sociais?

O aumento crescente do desemprego e o seu reflexo na multiplicação do emprego precário provocado pela informalidade contribui diretamente para este quadro dramático. Que país é este onde as pesquisas mostram que grande parte dos trabalhadores brasileiros vivem hoje com um quarto do salário mínimo? Até mesmo economistas liberais, fazendo um meia culpa tardio, já alertaram que o Brasil não tem futuro se não resolver a questão da desigualdade social. Mas o governo atual, a exemplo do golpista Michel Temer, parece não se importar, basta ver o atual pacote anti-trabalhista enviado pelo todo poderoso ministro da Economia, onde uma das ferramentas do seu saco de maldades é uma maldita “carteira verdade-amarela” com foco no aumento do emprego para os jovens brasileiros. Serão empregos com menos direitos para os futuros trabalhadores e mais privilégios para os patrões. E neste mesmo pacote pretende-se arrecadar 12 bilhões de reais com a taxação dos desempregados. É o cúmulo do cinismo. Pobre da nossa juventude, que ficará à mercê da exploração e das condições indignas de trabalho que foram os maiores motivos da nossa luta sindical de décadas atrás. Mais uma mostra do atraso que o atual governo representa.

Em meio a toda esta tragédia social e econômica, aliada ao objetivo de desmonte total da máquina pública, ainda registramos dois dos maiores desastres ambientais da nossa história recente: as queimadas e o aumento do desmatamento na Amazônia e o derramamento de óleo que atingiu cerca de 300 praias do Nordeste e até do Sudeste, que prejudica ferozmente pescadores, empresários, turistas e toda a economia dos estados nordestinos. No primeiro caso vimos a inapetência e a cumplicidade criminosa do atual governo, cujo presidente já admitiu em discurso que teria incentivado irresponsavelmente as queimadas. No segundo, mais uma vergonhosa constatação de que estamos sem governo neste país. Em qualquer nação séria o atual ministro do Meio Ambiente seria imediatamente demitido e processado.

Diante deste quadro de desolação e de desconstrução dos avanços conquistados a duras penas durante os treze anos dos governos Lula e Dilma chamo a atenção para a importância deste 7º Congresso neste momento de reorganização da nossa luta política. Como o maior partido de esquerda da América Latina cabe ao PT o papel histórico de não somente debater a atual conjuntura internacional e, especialmente a nacional, mas também apontar rumos e encaminhar decisões para fortalecer a defesa da democracia, dos movimentos sociais e dos direitos coletivos e individuais que estão sob grande ameaça no Brasil.

Deixo aqui então esta minha pequena contribuição sobre estes temas que, logicamente, serão bem mais aprofundados durante o nosso Congresso, mas agora quero me dirigir especificamente aos companheiros e companheiras da minha corrente interna no PT, a Construindo um Novo Brasil (CNB).

Corrente esta que atualmente dá continuidade a um processo político iniciado ainda com o grupo 113, e que já faz parte da trajetória histórica dos 39 anos do PT, período em que sempre atuou para garantir a implementação do projeto nacional que defendemos para o Brasil.

É importante destacar o papel da CNB como uma corrente pluralista, que sempre defendeu o Processo de Eleição Direta (PED) para a escolha das direções em todas as instâncias partidárias, que é uma das coisas mais democráticas dentro de um partido de esquerda.

Aproveito também para parabenizar e agradecer a todos/as filiados/as que foram às urnas em 8 de setembro para exercer o seu legítimo direito de votar nas direções partidárias e chapas de delegados/as aos seus respectivos congressos estaduais. Lembramos que o PED 2019 contou com a presença de 370 mil filiados/as votantes.

Com a ajuda de todos/as, a CNB conseguiu chegar a mais de 50% dos votos, o que é um feito extremamente importante para uma corrente interna. E na minha opinião poderíamos ter chegado a conquistar uma porcentagem bem maior nesta disputa, mas reafirmo aqui todo o nosso respeito às demais forças internas que também participaram do PED 2019 de maneira brilhante fiel aos princípios democráticos que norteiam o PT.

Por isso quero conclamar aqui os delegados e delegadas da CNB ao 7º Congresso para que, maciçamente, contribuam de forma positiva e produtiva para com os debates e a elaboração de propostas para que o Partido dos Trabalhadores se prepare para os seus próximos grandes desafios. E que se mantenham unidos para a eleição de uma nova direção nacional do PT, coesa e eficiente na construção do partido.

Este Congresso é também especial porque contará mais uma vez com a presença do nosso líder máximo, Luiz Inácio Lula da Silva, enfim solto após a sua prisão injusta e ilegal, mas ainda na luta para que seja confirmada a sua inocência, na qual todos nós, seus companheiros e companheiras de luta acreditamos piamente. Assim como os companheiros João Vaccari, José Dirceu, Delúbio Soares e outros, também soltos, mas cuja liberdade e inocência ainda não estão garantidas. Portanto, a resistência tem que continuar.

Devemos concentrar o nosso foco na consolidação de uma oposição forte para fazer frente ao atual desgoverno fascista e reagrupar as forças populares para vencer as eleições de 2020 e de 2022.

Viva o PT!

Lula Inocente!

Gleisi Presidenta!

 

Francisco Rocha da Silva, Rochinha
Coordenador Nacional da CNB

sexta-feira, 6 de setembro de 2019

PED 2019 – Processo de Eleição Direta


Fortalecer o PT para disputar as eleições de 2020 e construir um projeto vitorioso em 2022
No contraponto ao desgoverno, ao fascismo e à opção descarada pelo autoritarismo que assistimos hoje no Brasil, o Partido dos Trabalhadores realiza no próximo domingo, dia 8 de setembro, a primeira etapa do PED 2019 - Processo de Eleição Direta rumo ao seu 7º Congresso. Trata-se, sem dúvida, de uma das maiores mobilizações de militantes entre todas as organizações políticas de esquerda do mundo.
Em quase cinco mil municípios brasileiros, os filiados e filiadas do PT vão escolher democraticamente - pelo voto direto - as suas novas direções municipais e votar nas chapas de delegados estaduais e nacionais, que em outubro e novembro deste ano elegerão as direções estaduais e nacional do Partido.

O PED 2019 será a grande arrancada do nosso Partido para a preparação e o fortalecimento das suas estruturas organizativas para a dura disputa das eleições municipais de 2020. Daí a importância de uma expressiva participação do conjunto de filiados/as petistas neste processo democrático que, sempre é bom lembrar, deve se pautar pela transparência, unidade e o comprometimento para com os princípios que sempre nortearam o PT.

O nosso fortalecimento político em 2020 permitirá que o Partido mantenha o foco para o seu maior desafio, que é a construção de um projeto democrático e popular para a disputa de 2022, rumo à vitória que garantirá o resgate da democracia e da dignidade para o povo brasileiro.
Por isso, conclamo toda a militância petista para se mobilizar e participar do PED 2019 que, mais uma vez, vai demonstrar ao país a nossa força e o nosso compromisso com a defesa da democracia.

Aproveito para pedir o voto nos/as candidatos/as da CNB – Construindo um Novo Brasil à presidência dos diretórios municipais e zonais, nas chapas de delegados/as para a escolha dos presidentes e presidentas estaduais que ocorrerá em outubro e na chapa nº 280 que escolherá a direção nacional em novembro, durante o 7º Congresso do PT.

Gleisi Presidenta!
Lula Livre!
Francisco Rocha da Silva, Rochinha
Coordenador Nacional da CNB



terça-feira, 20 de agosto de 2019

TESE LULA LIVRE PARA MUDAR O BRASIL (CNB)


Caras companheiras e companheiros, segue aqui a íntegra de nossa Tese "LULA LIVRE PARA MUDAR O BRASIL!" apresentada ao 7º Congresso Nacional do PT que excedeu bastante o tamanho estabelecido pelo Partido para as teses. Tivemos, na verdade, que fazer um drástico resumo para caber no tamanho oficial. No entanto, dada a importância e a qualidade de muitos textos e/ou trechos que não foi possível aproveitar na tese resumida, decidimos publicar aqui a versão integral para contribuir com o debate.
Att. Comissão de Tese CNB..

Baixe aqui o Caderno de Teses:



quarta-feira, 8 de maio de 2019

Íntegra do pronunciamento feito por Lula antes da entrevista ao El País e Folha


“Minha condenação injusta e minha prisão ilegal há mais de um ano são mais que o resultado de uma farsa jurídica. São consequências diretas do fracasso social, econômico e político do golpe do impeachment contra a presidenta Dilma Rousseff em 2016. Aquele golpe começou a ser preparado em 2013, quando a Rede Globo usou sua concessão pública para convocar manifestações de rua contra o governo e até contra o sistema democrático. Tudo valia para tirar o PT do governo, inclusive a mentira e a manipulação pela mídia.

Isso aconteceu quando nossos governos tinham alcançado nossas maiores marcas: multiplicamos o PIB por várias vezes, chegamos a 20 milhões de novos empregos formais, tiramos 36 milhões da miséria, levamos 3,5 milhões de jovens à universidade, acabamos com a fome, multiplicamos de modo espetacular a produção e comércio da agricultura familiar, multiplicamos por quatro a oferta de crédito. E isso em meio a uma das maiores crises do capitalismo na história mundial.

O novo Brasil que estávamos criando, junto com o povo e as forças produtivas nacionais, foi retratado pela Rede Globo e seus seguidores na imprensa como um país sem rumo e corroído pela corrupção. Nem em 1954, contra Getúlio, nem em 1964, contra Jango, se viu tanta demonização contra um partido, governo ou presidente. Centenas de horas no Jornal Nacional e milhares de manchetes e capas de revistas contra nós. Nenhuma chance de defender nossas opiniões.

Mesmo assim, em 2014, derrotamos os poderosos nas urnas pela quarta vez consecutiva. Para quem não conhece o Brasil: nossas “elites” dizimaram milhões de indígenas desde 1.500; destruíram florestas e enriqueceram por 300 anos à custa de escravos, tratados como bestas; colonos e operários tratados como servos; divergentes como subversivos; mulheres como objeto, e diferentes como párias. Negaram terra, dignidade, educação, saúde e cidadania ao nosso povo.

Mas a Globo, o mercado, os representantes dos estrangeiros, os oportunistas da política e os exploradores da gente simples disseram que era preciso tirar o PT do governo para resolver os problemas do Brasil. Hoje o povo brasileiro sabe que foi enganado.

Criamos o PT, em 1980, para defender as liberdades democráticas, os direitos do povo e dos trabalhadores. O acúmulo das lutas do PT e da esquerda, do sindicalismo, dos movimentos sociais e populares nos levou a consolidar um pacto democrático na Constituinte de 1988. Esse pacto foi rompido pelo golpe do impeachment em 2016 e por seu desdobramento, que foi minha condenação sem culpa e minha prisão em tempo recorde para não disputar eleições.

Reafirmo minha inocência, comprovada por todos os meios de prova nas ações em que fui injustamente condenado pelo ex-juiz Sergio Moro, sua colega substituta e três desembargadores acumpliciados do TRF-4. Repudio as acusações levianas dos procuradores da Lava Jato e denuncio Deltan Dallagnol, que nunca teve a coragem de sustentar ante meus olhos as mentiras que levantou contra mim, minha esposa e meus filhos.

Mais de um ano depois de minha prisão arbitrária, está cada dia mais claro para o povo brasileiro que fui injustiçado para não ser candidato nas eleições presidenciais do ano passado, nas quais, segundo todas as pesquisas de opinião pública, teria sido eleito em primeiro turno contra todos os adversários. O povo sabe que minha prisão teve motivos políticos. Posso dormir com a consciência tranquila por ser inocente. Os que me condenaram, não.

Fui condenado sem provas e sem crime; minha pena ilegal foi agravada pelo arbítrio de três desembargadores do TRF-4, tão parciais quanto o ex-juiz Moro; os recursos de minha defesa, lastreados em argumentos sólidos, foram ignorados burocraticamente pelo STJ; meus direitos políticos foram negados –contra a lei, a jurisprudência e uma decisão da ONU – pela Justiça Eleitoral.

Mesmo assim minhas ideias e meus ideais continuam vivos na memória e no coração do povo brasileiro. Mantenho minha esperança e confiança no futuro, em um julgamento justo, por causa das generosas manifestações de solidariedade que recebo todos os dias aqui em Curitiba, por parte de companheiros maravilhosos da Vigília e de todos os cantos do Brasil e do mundo.

Eu sei muito bem qual é o lugar que a História nos reserva, meus companheiros e companheiras. E sei também quem estará na lixeira dos tempos quando o povo vencer mais essa batalha. Mais importante do que isso: sei que a injustiça cometida contra mim recai sobre o povo brasileiro, que perdeu direitos, oportunidades, salário justo, emprego formal, renda e esperança num futuro melhor.

Hoje estou aqui para falar com jornalistas, como sempre fiz ao longo da vida. Na verdade, para falar com nosso povo. Esse direito me foi negado por mais de sete meses e durante o processo eleitoral, o que estava absolutamente fora da lei.

Mas guardo comigo uma certeza: preso ou livre, censurado ou não, tenho com o povo brasileiro uma comunhão eterna que o tempo não vai apagar. Contra todos os poderosos, contra a censura e a opressão, estaremos sempre juntos por um Brasil melhor e mais justo, com oportunidades para todos.”

Luiz Inácio Lula da Silva

Assista o momento em que Lula lê a carta: - https://www.facebook.com/institutolula/videos/2216653145094192/

segunda-feira, 18 de março de 2019

A ultradireita tenta impor um projeto de nação




O fortalecimento dos partidos e organizações políticas de ultradireita já é hoje um fenômeno mundial, inclusive em países europeus onde imperou por décadas a bandeira da social democracia ou do socialismo democrático. Mas aqui no Brasil esse movimento ultraconservador já vinha crescendo há mais ou menos uma década, mas começou a aparecer com uma maior nitidez a partir de 2013 e culminou em 2018 com a vitória dos partidos de extrema direita nas eleições presidenciais.

O avanço da extrema direita começa a despontar justamente durante as mobilizações de protesto contra o aumento do preço das passagens de ônibus na cidade de São Paulo, em junho de 2013, com um acréscimo de R$ 0,25 que serviu como pretexto. Os protestos em massa encabeçados pelo movimento estudantil paulistano acabaram por se transformar em uma mobilização nacional com passeatas e atos em todo o país, que abrangiam o mais variado escopo de protestos com uma variedade de temas que iam de política a religião. O que também se viu nas ruas foi um desfile de aberrações, tais como uma insana apologia à ditadura militar, pedidos de intervenção militar e manifestações de intolerância contra quem pensasse diferente.
Este movimento nacional acéfalo não somente levou centenas de milhares de pessoas às ruas, mas também caiu como uma luva para os partidos de direita que já faziam oposição radical aos governos de esquerda potencializarem a sua campanha de difamação da esquerda e de estímulo ao ódio nas disputas políticas em todos os seus níveis. E propiciou o surgimento de organizações conservadoras oportunistas, com discursos raivosos anti-esquerda, para disputar espaço com os movimentos históricos que sempre atuaram na defesa da democracia.
A partir daí teve início uma campanha sórdida de desestabilização político-social do governo Dilma Rousseff, que recrudesceu a partir da sua reeleição em 2014, principalmente no Parlamento dominado pela centro-direita, que terminou com o mal afamado golpe midiático-parlamentar que derrubou a presidenta em 2016. O restante da história todos nós sabemos de cor e salteado.

Todos esses acontecimentos políticos, acompanhados do uso criminoso das redes sociais e do whatsapp, contribuíram para a construção da vitória da extrema direita brasileira, até então relegada ao baixo clero da política.
Por isso, a conjuntura atual, imposta por um governo de extrema direita que atenta contra as liberdades e a organização dos trabalhadores, exige de todos nós uma unidade maior, além de uma reorganização estratégica, especialmente por parte dos partidos e dos movimentos de esquerda do país.
Como dado positivo, apesar de todas as tentativas de se impor retrocessos culturais dentro do projeto de nação defendido pela ultradireita, resta-nos o consolo de ver a sociedade civil organizando a sua própria resistência. Exemplos disto foram constatados durante o carnaval deste ano, seja nos enredos das escolas de samba ou na criatividade libertadora dos blocos de carnaval pelo país afora que se inspiraram em temas políticos e históricos para defender a democracia e as liberdades. Também nas manifestações multiculturais do Dia Internacional da Mulher, em 8 de março, e de outras tantas manifestações públicas em festivais e em outros eventos públicos que reuniram milhares de pessoas na defesa dos direitos humanos e sociais.
O alerta contra a intolerância e o ódio que ameaçam destruir o espírito de solidariedade e de humanidade que sempre marcou o nosso povo já foi dado através dos atos de violência constatados em lugares jamais imaginados, como uma escola pública. A tragédia ocorrida na escola Raul Brasil, em Suzano-SP, é reflexo desse sentimento de ódio que tentam incutir na sociedade brasileira. E ela vem na esteira de outros atos violentos ocorridos nos últimos anos, como o da escola de Realengo, no Rio de Janeiro, e mesmo no triste episódio de 2017 em Janaúba, quando oito crianças e uma professora morreram depois que um funcionário jogou álcool e ateou fogo nas mesmas.
No mundo inteiro, não é de hoje que impera a violência contra a liberdade de expressão e o pensamento. Os exemplos são muitos e alguns são emblemáticos, como os famosos casos do atentado ao jornal Charlie Hebdo, na França, que resultou no massacre dos seus jornalistas; a morte de 112 pessoas no terrível ataque terrorista à casa noturna Bataclan, em Paris; mais recentemente, a tortura e a morte cruel do jornalista saudita Jamal Kashoggi, a mando do próprio governante do seu país. E nesta semana o brutal assassinado de 50 fiéis muçulmanos em uma mesquita na Nova Zelândia, praticado por um supremacista branco em um claro episódio de islamofobia e de xenofobia, e o atentado na Holanda nesta segunda-feira, 18, que resultou na morte de três pessoas, entre outros tantos atos de terror, na maioria das vezes movidos pelo ódio.

A questão da divulgação da intolerância e do ódio nas redes sociais é muito grave, pois contam com o apoio dos porões da rede onde se escondem terroristas e fóruns extremistas que estimulam a violência e a desumanidade no mundo. E o Brasil não está fora deste contexto, infelizmente.
Diante disto, os partidos de esquerda e os cidadãos que desejam preservar a democracia e os direitos humanos e sociais devem se unir para combater o ódio e a intolerância na sua essência. E nisto se inclui o projeto de destruição que a extrema direita planeja implantar em nosso país sob o falso formato de medidas legais.

Em 18 de março de 2019 
Francisco Rocha da Silva, Rochinha


terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Eleições 2018: Venceu o ódio, o medo, as fake news e o despreparo

As eleições realizadas em 2018 para presidente da República, governadores, deputados federais e estaduais possivelmente tenham sido as mais fragmentadas que já existiram no Brasil pós redemocratização. E o resultado final das urnas merecem uma profunda análise e reflexão política que deve estar sendo feita continuamente.

À primeira vista parece ser o resultado final de um movimento da extrema-direita que já vinha permeando a vida política do país desde 2013. É lógico que o fortalecimento da direita nazifascista vem ocorrendo em vários países do mundo, insuflado pelos Estados Unidos como resultado da vitória de Donald Trump, com conexão com a direita israelense e de outros países como a Hungria e Itália.

Já na disputa de 2014 com uma eleição totalmente judicializada na sua essência, também se verificou um perfil parecido com a do ano passado, pois ali já vinha prevalecendo a intolerância e o ódio. Essa judicialização sobre a atuação legítima dos partidos políticos fez com que se garantisse o caráter individualista e personalista na disputa política, com o enfraquecimento brutal das nossas organizações partidárias. Não há mais dúvida de que este trabalho foi feito de forma metódica e planejada para culminar na destruição do papel das legendas políticas para o preparo da disputa em 2018.

É importante ressaltar na análise do que ocorreu em 2018 que, com a acirrada disputa entre esquerda e direita, ou extrema-direita, como queiram, constatou-se o desaparecimento do centro no cenário político brasileiro, o que provocou um sério desequilíbrio entre as forças políticas do país.

As eleições de 2018 ficarão marcadas na história política do país, não somente pela disseminação do ódio, do medo e das fake news nas redes sociais, e pelo uso ostensivo do WhatsApp para o mal e para o bem, mas também pela fragmentação da votação, além de uma forte abstenção tanto no primeiro como no segundo turno.

Para se ter ideia, no primeiro turno, de um universo de 147.306.294 eleitores compareceram para votar 117.363.908 (79,7%) eleitores. As abstenções somaram impressionantes 29.942.386 (20,3%) de eleitores. Os votos válidos somaram 105.050.749 (91,2%), sendo que os votos brancos foram 3.106.937 e os nulos totalizaram 7.206.222.  O primeiro turno foi disputado por 13 candidatos à Presidência da República, um número recorde, ou seja, as pessoas tinham várias opções para dar o seu voto e mesmo assim quase 30 milhões deixaram de comparecer. O candidato da extrema-direita obteve 46% dos votos e o nosso candidato, Fernando Haddad, alcançou 29,3%.

No segundo turno, novamente se verificou uma destacada abstenção quando dos 147.306.294 eleitores um total de 115.933.451 (78,7%) compareceram para votar. Ou seja, mais uma abstenção recorde de 31.372.843 (21,3%) de eleitores. Os votos brancos somaram 2.486.593 (2,1%) e os nulos 8.608.105 (7,4%). O candidato da extrema-direita venceu o segundo turno com 57,1% dos votos válidos e Fernando Haddad conquistou 44,9% do eleitorado em um segundo turno marcado por uma enxurrada de fake news e outros ataques violentos nas redes à nossa candidatura e à esquerda que se uniu em torno do seu nome.

Esta fragmentação e a ausência do eleitor na urna contribuiu decisivamente para formar o perfil das bancadas de deputados, seja federal como estaduais. Com o sumiço do espectro do centro político, poucos partidos sobreviveram reduzindo drasticamente as suas bancadas e é bom lembrar de que vários deles se transformaram em verdadeiros guarda-chuva para acomodar candidatos das matrizes ideológicas mais diferenciadas, como o MBL que se acomodou no PSL e no DEM.

O único partido que saiu ileso desse tsunami eleitoral foi o PT, com a sua bancada íntegra e nitidamente ideológica e partidária. Para quem quer construir uma democracia republicana ou parlamentarista precisa ter acima de tudo partidos fortes e bancadas ideológicas. Aqueles que se escondem à sombra criticando as ideologias são os que mais as praticam, sobretudo para o lado do mal. A militância do PT quer um partido forte e as suas bancadas estaduais e federal unidas, orgânicas e ideológicas.

Não dá para se fazer uma avaliação segura de um governo de extrema-direita pela primeira vez comandará o Brasil, mas dá para, infelizmente, imaginar o que vem pela frente.

Para terminar deixo a seguinte frase: As esquerdas perderam os anéis, mas não perderam os dedos e nem o rumo!

 

Francisco Rocha da Silva, Rochinha