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segunda-feira, 18 de março de 2019

A ultradireita tenta impor um projeto de nação




O fortalecimento dos partidos e organizações políticas de ultradireita já é hoje um fenômeno mundial, inclusive em países europeus onde imperou por décadas a bandeira da social democracia ou do socialismo democrático. Mas aqui no Brasil esse movimento ultraconservador já vinha crescendo há mais ou menos uma década, mas começou a aparecer com uma maior nitidez a partir de 2013 e culminou em 2018 com a vitória dos partidos de extrema direita nas eleições presidenciais.

O avanço da extrema direita começa a despontar justamente durante as mobilizações de protesto contra o aumento do preço das passagens de ônibus na cidade de São Paulo, em junho de 2013, com um acréscimo de R$ 0,25 que serviu como pretexto. Os protestos em massa encabeçados pelo movimento estudantil paulistano acabaram por se transformar em uma mobilização nacional com passeatas e atos em todo o país, que abrangiam o mais variado escopo de protestos com uma variedade de temas que iam de política a religião. O que também se viu nas ruas foi um desfile de aberrações, tais como uma insana apologia à ditadura militar, pedidos de intervenção militar e manifestações de intolerância contra quem pensasse diferente.
Este movimento nacional acéfalo não somente levou centenas de milhares de pessoas às ruas, mas também caiu como uma luva para os partidos de direita que já faziam oposição radical aos governos de esquerda potencializarem a sua campanha de difamação da esquerda e de estímulo ao ódio nas disputas políticas em todos os seus níveis. E propiciou o surgimento de organizações conservadoras oportunistas, com discursos raivosos anti-esquerda, para disputar espaço com os movimentos históricos que sempre atuaram na defesa da democracia.
A partir daí teve início uma campanha sórdida de desestabilização político-social do governo Dilma Rousseff, que recrudesceu a partir da sua reeleição em 2014, principalmente no Parlamento dominado pela centro-direita, que terminou com o mal afamado golpe midiático-parlamentar que derrubou a presidenta em 2016. O restante da história todos nós sabemos de cor e salteado.

Todos esses acontecimentos políticos, acompanhados do uso criminoso das redes sociais e do whatsapp, contribuíram para a construção da vitória da extrema direita brasileira, até então relegada ao baixo clero da política.
Por isso, a conjuntura atual, imposta por um governo de extrema direita que atenta contra as liberdades e a organização dos trabalhadores, exige de todos nós uma unidade maior, além de uma reorganização estratégica, especialmente por parte dos partidos e dos movimentos de esquerda do país.
Como dado positivo, apesar de todas as tentativas de se impor retrocessos culturais dentro do projeto de nação defendido pela ultradireita, resta-nos o consolo de ver a sociedade civil organizando a sua própria resistência. Exemplos disto foram constatados durante o carnaval deste ano, seja nos enredos das escolas de samba ou na criatividade libertadora dos blocos de carnaval pelo país afora que se inspiraram em temas políticos e históricos para defender a democracia e as liberdades. Também nas manifestações multiculturais do Dia Internacional da Mulher, em 8 de março, e de outras tantas manifestações públicas em festivais e em outros eventos públicos que reuniram milhares de pessoas na defesa dos direitos humanos e sociais.
O alerta contra a intolerância e o ódio que ameaçam destruir o espírito de solidariedade e de humanidade que sempre marcou o nosso povo já foi dado através dos atos de violência constatados em lugares jamais imaginados, como uma escola pública. A tragédia ocorrida na escola Raul Brasil, em Suzano-SP, é reflexo desse sentimento de ódio que tentam incutir na sociedade brasileira. E ela vem na esteira de outros atos violentos ocorridos nos últimos anos, como o da escola de Realengo, no Rio de Janeiro, e mesmo no triste episódio de 2017 em Janaúba, quando oito crianças e uma professora morreram depois que um funcionário jogou álcool e ateou fogo nas mesmas.
No mundo inteiro, não é de hoje que impera a violência contra a liberdade de expressão e o pensamento. Os exemplos são muitos e alguns são emblemáticos, como os famosos casos do atentado ao jornal Charlie Hebdo, na França, que resultou no massacre dos seus jornalistas; a morte de 112 pessoas no terrível ataque terrorista à casa noturna Bataclan, em Paris; mais recentemente, a tortura e a morte cruel do jornalista saudita Jamal Kashoggi, a mando do próprio governante do seu país. E nesta semana o brutal assassinado de 50 fiéis muçulmanos em uma mesquita na Nova Zelândia, praticado por um supremacista branco em um claro episódio de islamofobia e de xenofobia, e o atentado na Holanda nesta segunda-feira, 18, que resultou na morte de três pessoas, entre outros tantos atos de terror, na maioria das vezes movidos pelo ódio.

A questão da divulgação da intolerância e do ódio nas redes sociais é muito grave, pois contam com o apoio dos porões da rede onde se escondem terroristas e fóruns extremistas que estimulam a violência e a desumanidade no mundo. E o Brasil não está fora deste contexto, infelizmente.
Diante disto, os partidos de esquerda e os cidadãos que desejam preservar a democracia e os direitos humanos e sociais devem se unir para combater o ódio e a intolerância na sua essência. E nisto se inclui o projeto de destruição que a extrema direita planeja implantar em nosso país sob o falso formato de medidas legais.

Em 18 de março de 2019 
Francisco Rocha da Silva, Rochinha