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quarta-feira, 8 de maio de 2019

Íntegra do pronunciamento feito por Lula antes da entrevista ao El País e Folha


“Minha condenação injusta e minha prisão ilegal há mais de um ano são mais que o resultado de uma farsa jurídica. São consequências diretas do fracasso social, econômico e político do golpe do impeachment contra a presidenta Dilma Rousseff em 2016. Aquele golpe começou a ser preparado em 2013, quando a Rede Globo usou sua concessão pública para convocar manifestações de rua contra o governo e até contra o sistema democrático. Tudo valia para tirar o PT do governo, inclusive a mentira e a manipulação pela mídia.

Isso aconteceu quando nossos governos tinham alcançado nossas maiores marcas: multiplicamos o PIB por várias vezes, chegamos a 20 milhões de novos empregos formais, tiramos 36 milhões da miséria, levamos 3,5 milhões de jovens à universidade, acabamos com a fome, multiplicamos de modo espetacular a produção e comércio da agricultura familiar, multiplicamos por quatro a oferta de crédito. E isso em meio a uma das maiores crises do capitalismo na história mundial.

O novo Brasil que estávamos criando, junto com o povo e as forças produtivas nacionais, foi retratado pela Rede Globo e seus seguidores na imprensa como um país sem rumo e corroído pela corrupção. Nem em 1954, contra Getúlio, nem em 1964, contra Jango, se viu tanta demonização contra um partido, governo ou presidente. Centenas de horas no Jornal Nacional e milhares de manchetes e capas de revistas contra nós. Nenhuma chance de defender nossas opiniões.

Mesmo assim, em 2014, derrotamos os poderosos nas urnas pela quarta vez consecutiva. Para quem não conhece o Brasil: nossas “elites” dizimaram milhões de indígenas desde 1.500; destruíram florestas e enriqueceram por 300 anos à custa de escravos, tratados como bestas; colonos e operários tratados como servos; divergentes como subversivos; mulheres como objeto, e diferentes como párias. Negaram terra, dignidade, educação, saúde e cidadania ao nosso povo.

Mas a Globo, o mercado, os representantes dos estrangeiros, os oportunistas da política e os exploradores da gente simples disseram que era preciso tirar o PT do governo para resolver os problemas do Brasil. Hoje o povo brasileiro sabe que foi enganado.

Criamos o PT, em 1980, para defender as liberdades democráticas, os direitos do povo e dos trabalhadores. O acúmulo das lutas do PT e da esquerda, do sindicalismo, dos movimentos sociais e populares nos levou a consolidar um pacto democrático na Constituinte de 1988. Esse pacto foi rompido pelo golpe do impeachment em 2016 e por seu desdobramento, que foi minha condenação sem culpa e minha prisão em tempo recorde para não disputar eleições.

Reafirmo minha inocência, comprovada por todos os meios de prova nas ações em que fui injustamente condenado pelo ex-juiz Sergio Moro, sua colega substituta e três desembargadores acumpliciados do TRF-4. Repudio as acusações levianas dos procuradores da Lava Jato e denuncio Deltan Dallagnol, que nunca teve a coragem de sustentar ante meus olhos as mentiras que levantou contra mim, minha esposa e meus filhos.

Mais de um ano depois de minha prisão arbitrária, está cada dia mais claro para o povo brasileiro que fui injustiçado para não ser candidato nas eleições presidenciais do ano passado, nas quais, segundo todas as pesquisas de opinião pública, teria sido eleito em primeiro turno contra todos os adversários. O povo sabe que minha prisão teve motivos políticos. Posso dormir com a consciência tranquila por ser inocente. Os que me condenaram, não.

Fui condenado sem provas e sem crime; minha pena ilegal foi agravada pelo arbítrio de três desembargadores do TRF-4, tão parciais quanto o ex-juiz Moro; os recursos de minha defesa, lastreados em argumentos sólidos, foram ignorados burocraticamente pelo STJ; meus direitos políticos foram negados –contra a lei, a jurisprudência e uma decisão da ONU – pela Justiça Eleitoral.

Mesmo assim minhas ideias e meus ideais continuam vivos na memória e no coração do povo brasileiro. Mantenho minha esperança e confiança no futuro, em um julgamento justo, por causa das generosas manifestações de solidariedade que recebo todos os dias aqui em Curitiba, por parte de companheiros maravilhosos da Vigília e de todos os cantos do Brasil e do mundo.

Eu sei muito bem qual é o lugar que a História nos reserva, meus companheiros e companheiras. E sei também quem estará na lixeira dos tempos quando o povo vencer mais essa batalha. Mais importante do que isso: sei que a injustiça cometida contra mim recai sobre o povo brasileiro, que perdeu direitos, oportunidades, salário justo, emprego formal, renda e esperança num futuro melhor.

Hoje estou aqui para falar com jornalistas, como sempre fiz ao longo da vida. Na verdade, para falar com nosso povo. Esse direito me foi negado por mais de sete meses e durante o processo eleitoral, o que estava absolutamente fora da lei.

Mas guardo comigo uma certeza: preso ou livre, censurado ou não, tenho com o povo brasileiro uma comunhão eterna que o tempo não vai apagar. Contra todos os poderosos, contra a censura e a opressão, estaremos sempre juntos por um Brasil melhor e mais justo, com oportunidades para todos.”

Luiz Inácio Lula da Silva

Assista o momento em que Lula lê a carta: - https://www.facebook.com/institutolula/videos/2216653145094192/

segunda-feira, 18 de março de 2019

A ultradireita tenta impor um projeto de nação




O fortalecimento dos partidos e organizações políticas de ultradireita já é hoje um fenômeno mundial, inclusive em países europeus onde imperou por décadas a bandeira da social democracia ou do socialismo democrático. Mas aqui no Brasil esse movimento ultraconservador já vinha crescendo há mais ou menos uma década, mas começou a aparecer com uma maior nitidez a partir de 2013 e culminou em 2018 com a vitória dos partidos de extrema direita nas eleições presidenciais.

O avanço da extrema direita começa a despontar justamente durante as mobilizações de protesto contra o aumento do preço das passagens de ônibus na cidade de São Paulo, em junho de 2013, com um acréscimo de R$ 0,25 que serviu como pretexto. Os protestos em massa encabeçados pelo movimento estudantil paulistano acabaram por se transformar em uma mobilização nacional com passeatas e atos em todo o país, que abrangiam o mais variado escopo de protestos com uma variedade de temas que iam de política a religião. O que também se viu nas ruas foi um desfile de aberrações, tais como uma insana apologia à ditadura militar, pedidos de intervenção militar e manifestações de intolerância contra quem pensasse diferente.
Este movimento nacional acéfalo não somente levou centenas de milhares de pessoas às ruas, mas também caiu como uma luva para os partidos de direita que já faziam oposição radical aos governos de esquerda potencializarem a sua campanha de difamação da esquerda e de estímulo ao ódio nas disputas políticas em todos os seus níveis. E propiciou o surgimento de organizações conservadoras oportunistas, com discursos raivosos anti-esquerda, para disputar espaço com os movimentos históricos que sempre atuaram na defesa da democracia.
A partir daí teve início uma campanha sórdida de desestabilização político-social do governo Dilma Rousseff, que recrudesceu a partir da sua reeleição em 2014, principalmente no Parlamento dominado pela centro-direita, que terminou com o mal afamado golpe midiático-parlamentar que derrubou a presidenta em 2016. O restante da história todos nós sabemos de cor e salteado.

Todos esses acontecimentos políticos, acompanhados do uso criminoso das redes sociais e do whatsapp, contribuíram para a construção da vitória da extrema direita brasileira, até então relegada ao baixo clero da política.
Por isso, a conjuntura atual, imposta por um governo de extrema direita que atenta contra as liberdades e a organização dos trabalhadores, exige de todos nós uma unidade maior, além de uma reorganização estratégica, especialmente por parte dos partidos e dos movimentos de esquerda do país.
Como dado positivo, apesar de todas as tentativas de se impor retrocessos culturais dentro do projeto de nação defendido pela ultradireita, resta-nos o consolo de ver a sociedade civil organizando a sua própria resistência. Exemplos disto foram constatados durante o carnaval deste ano, seja nos enredos das escolas de samba ou na criatividade libertadora dos blocos de carnaval pelo país afora que se inspiraram em temas políticos e históricos para defender a democracia e as liberdades. Também nas manifestações multiculturais do Dia Internacional da Mulher, em 8 de março, e de outras tantas manifestações públicas em festivais e em outros eventos públicos que reuniram milhares de pessoas na defesa dos direitos humanos e sociais.
O alerta contra a intolerância e o ódio que ameaçam destruir o espírito de solidariedade e de humanidade que sempre marcou o nosso povo já foi dado através dos atos de violência constatados em lugares jamais imaginados, como uma escola pública. A tragédia ocorrida na escola Raul Brasil, em Suzano-SP, é reflexo desse sentimento de ódio que tentam incutir na sociedade brasileira. E ela vem na esteira de outros atos violentos ocorridos nos últimos anos, como o da escola de Realengo, no Rio de Janeiro, e mesmo no triste episódio de 2017 em Janaúba, quando oito crianças e uma professora morreram depois que um funcionário jogou álcool e ateou fogo nas mesmas.
No mundo inteiro, não é de hoje que impera a violência contra a liberdade de expressão e o pensamento. Os exemplos são muitos e alguns são emblemáticos, como os famosos casos do atentado ao jornal Charlie Hebdo, na França, que resultou no massacre dos seus jornalistas; a morte de 112 pessoas no terrível ataque terrorista à casa noturna Bataclan, em Paris; mais recentemente, a tortura e a morte cruel do jornalista saudita Jamal Kashoggi, a mando do próprio governante do seu país. E nesta semana o brutal assassinado de 50 fiéis muçulmanos em uma mesquita na Nova Zelândia, praticado por um supremacista branco em um claro episódio de islamofobia e de xenofobia, e o atentado na Holanda nesta segunda-feira, 18, que resultou na morte de três pessoas, entre outros tantos atos de terror, na maioria das vezes movidos pelo ódio.

A questão da divulgação da intolerância e do ódio nas redes sociais é muito grave, pois contam com o apoio dos porões da rede onde se escondem terroristas e fóruns extremistas que estimulam a violência e a desumanidade no mundo. E o Brasil não está fora deste contexto, infelizmente.
Diante disto, os partidos de esquerda e os cidadãos que desejam preservar a democracia e os direitos humanos e sociais devem se unir para combater o ódio e a intolerância na sua essência. E nisto se inclui o projeto de destruição que a extrema direita planeja implantar em nosso país sob o falso formato de medidas legais.

Em 18 de março de 2019 
Francisco Rocha da Silva, Rochinha


terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Eleições 2018: Venceu o ódio, o medo, as fake news e o despreparo

As eleições realizadas em 2018 para presidente da República, governadores, deputados federais e estaduais possivelmente tenham sido as mais fragmentadas que já existiram no Brasil pós redemocratização. E o resultado final das urnas merecem uma profunda análise e reflexão política que deve estar sendo feita continuamente.

À primeira vista parece ser o resultado final de um movimento da extrema-direita que já vinha permeando a vida política do país desde 2013. É lógico que o fortalecimento da direita nazifascista vem ocorrendo em vários países do mundo, insuflado pelos Estados Unidos como resultado da vitória de Donald Trump, com conexão com a direita israelense e de outros países como a Hungria e Itália.

Já na disputa de 2014 com uma eleição totalmente judicializada na sua essência, também se verificou um perfil parecido com a do ano passado, pois ali já vinha prevalecendo a intolerância e o ódio. Essa judicialização sobre a atuação legítima dos partidos políticos fez com que se garantisse o caráter individualista e personalista na disputa política, com o enfraquecimento brutal das nossas organizações partidárias. Não há mais dúvida de que este trabalho foi feito de forma metódica e planejada para culminar na destruição do papel das legendas políticas para o preparo da disputa em 2018.

É importante ressaltar na análise do que ocorreu em 2018 que, com a acirrada disputa entre esquerda e direita, ou extrema-direita, como queiram, constatou-se o desaparecimento do centro no cenário político brasileiro, o que provocou um sério desequilíbrio entre as forças políticas do país.

As eleições de 2018 ficarão marcadas na história política do país, não somente pela disseminação do ódio, do medo e das fake news nas redes sociais, e pelo uso ostensivo do WhatsApp para o mal e para o bem, mas também pela fragmentação da votação, além de uma forte abstenção tanto no primeiro como no segundo turno.

Para se ter ideia, no primeiro turno, de um universo de 147.306.294 eleitores compareceram para votar 117.363.908 (79,7%) eleitores. As abstenções somaram impressionantes 29.942.386 (20,3%) de eleitores. Os votos válidos somaram 105.050.749 (91,2%), sendo que os votos brancos foram 3.106.937 e os nulos totalizaram 7.206.222.  O primeiro turno foi disputado por 13 candidatos à Presidência da República, um número recorde, ou seja, as pessoas tinham várias opções para dar o seu voto e mesmo assim quase 30 milhões deixaram de comparecer. O candidato da extrema-direita obteve 46% dos votos e o nosso candidato, Fernando Haddad, alcançou 29,3%.

No segundo turno, novamente se verificou uma destacada abstenção quando dos 147.306.294 eleitores um total de 115.933.451 (78,7%) compareceram para votar. Ou seja, mais uma abstenção recorde de 31.372.843 (21,3%) de eleitores. Os votos brancos somaram 2.486.593 (2,1%) e os nulos 8.608.105 (7,4%). O candidato da extrema-direita venceu o segundo turno com 57,1% dos votos válidos e Fernando Haddad conquistou 44,9% do eleitorado em um segundo turno marcado por uma enxurrada de fake news e outros ataques violentos nas redes à nossa candidatura e à esquerda que se uniu em torno do seu nome.

Esta fragmentação e a ausência do eleitor na urna contribuiu decisivamente para formar o perfil das bancadas de deputados, seja federal como estaduais. Com o sumiço do espectro do centro político, poucos partidos sobreviveram reduzindo drasticamente as suas bancadas e é bom lembrar de que vários deles se transformaram em verdadeiros guarda-chuva para acomodar candidatos das matrizes ideológicas mais diferenciadas, como o MBL que se acomodou no PSL e no DEM.

O único partido que saiu ileso desse tsunami eleitoral foi o PT, com a sua bancada íntegra e nitidamente ideológica e partidária. Para quem quer construir uma democracia republicana ou parlamentarista precisa ter acima de tudo partidos fortes e bancadas ideológicas. Aqueles que se escondem à sombra criticando as ideologias são os que mais as praticam, sobretudo para o lado do mal. A militância do PT quer um partido forte e as suas bancadas estaduais e federal unidas, orgânicas e ideológicas.

Não dá para se fazer uma avaliação segura de um governo de extrema-direita pela primeira vez comandará o Brasil, mas dá para, infelizmente, imaginar o que vem pela frente.

Para terminar deixo a seguinte frase: As esquerdas perderam os anéis, mas não perderam os dedos e nem o rumo!

 

Francisco Rocha da Silva, Rochinha