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quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Mais uma contribuição para o VI Congresso do PT

Mais uma contribuição para o VI Congresso do PT
Paulo Frateschi
06.11.2016

O PT e o Governo Lula investiram numa estratégia que, baseada no nosso programa democrático popular, buscou uma aliança com algumas frações da burguesia nacional. Estas parcelas foram entendendo que, naquele estágio do capitalismo brasileiro, um mercado interno vigoroso, a inclusão de milhões de brasileiros, a melhoria da renda da classe trabalhadora, a ampliação do crédito e os projetos sociais iriam fortalecer as empresas nacionais.

O Governo Lula obteve excelentes resultados e extraordinária aprovação popular. Parte do empresariado fortificou e ampliou suas empresas e seus negócios num momento de crescimento econômico com distribuição de renda. Portanto, foi sim construída uma aliança com estas frações da burguesia nacional demonstrando que o receituário neoliberal pode e deve ser combatido e que o combate à pobreza é compatível com o desenvolvimento econômico.

Os resultados foram tão bons e incomodaram tanto o grande capital financeiro e as grandes corporações internacionais que, para derrotar o PT e seu projeto democrático e popular, valia até sacrificar esses setores da burguesia nacional. É simplória e desprovida de fundamentos a tese de que esse ciclo se esgotou porque esta burguesia, que cresceu no Governo Lula, resolveu nos derrubar ao ver seus lucros ameaçados pela melhoria da participação dos trabalhadores na renda nacional. Essas parcelas da burguesia nacional estão sendo destruídas para que possam derrotar o projeto como um todo.

As grandes construtoras estão na bancarrota. As empresas ligadas a construção naval, totalmente paralisadas. As companhias ligadas à Petrobras, em stand by. A maior produtora de proteína animal, duramente perseguida, está levando sua sede para fora do país. Os negócios das empresas nacionais estão parados. Enquanto isso, a chancelaria do governo golpista articula em Washington-NY a entrega de tudo para os grandes aglomerados americanos.

Quem ganha e quem perde com o golpe no mundo do capital? Será que isso não interessa para o mundo do trabalho? Quem planejou, sustentou e aplicou o golpe foi o rentismo, o grande capital financeiro e as grandes empresas americanas, que têm interesse no Pré-Sal e em substituir as empresas nacionais que estão sendo sacrificadas. Quem derrubou Dilma foi esse movimento global do grande capital, que considera que para aumentar seus lucros é preciso arruinar os trabalhadores, diminuir sua renda para otimizar a mais valia relativa que cai sempre na sua conta.

Conta bancaria, é claro. Até agora – nesse início de discussão do VI Congresso – a crítica principal que aparece é que nossa estratégia foi errada ao acreditar na possibilidade da “conciliação de classe”, sem conflitos mais profundos com os interesses do grande empresariado. E que, em decorrência dessa visão, fomos deslizando para o “progressismo melhorista” de inclusão social. Assim, teríamos abandonado nossos objetivos de realização de reformas estruturais democráticas e populares articuladas com a luta pelo socialismo. Se o termo “conciliação” for usado de forma pejorativa para tentar demonstrar fraqueza do nosso projeto e prejuízo para os trabalhadores, devemos rejeitá-lo.

A história da luta pela emancipação dos trabalhadores aponta vários momentos em que foram necessárias alianças com setores da burguesia levando-se em conta o estágio de desenvolvimento do capitalismo e o nível de crescimento da luta dos oprimidos. A negação desses processos deseduca a classe trabalhadora. Trabalhador não é tudo igual. Mãe não é tudo igual. Mulher não é tudo igual. Homem não é tudo igual. Ouso afirmar que a BURGUESIA também não é tudo igual. A burguesia ocupa posições diferenciadas no sistema e carrega graves contradições. Cabe a nós tentarmos essas contradições. Durante todo o período dos nossos governos levantamos as bandeiras da reforma política, da reforma tributária e da regulamentação das comunicações.

 Em muitos momentos, alguns cobraram mais empenho de mobilização do partido, outros cobraram mais definição e decisão por parte do governo. Talvez todos tenham razão. Entretanto, não podemos descartar a correlação de forças nesses embates. O jogo foi bruto. Os tribunais estão contra nós. As forças conservadoras do congresso estão contra nós. A mídia monopolizada usa todas as armas contra nós. A parcela mais conservadora da classe média está contra nós. Para piorar: setores “aliados” cedem a esses poderes. O certo é que, na análise da correlação de forças, os passos que poderiam precipitar confrontos foram evitados. Em certo momento, tememos que a imprensa iria nos massacrar com o envio da mensagem da regulamentação da mídia.

Ora, eles já nos massacravam o tempo todo. Então por que não enfrentá-los? Se tivéssemos perdido no congresso e nos tribunais teríamos avançado na politização do nosso povo e teríamos mais força para resistir ao golpe. Outro exemplo: provavelmente não teríamos vencido a batalha da reforma tributária que desejamos, com importo progressivo, taxação das grandes fortunas, etc. No entanto, se tivéssemos entrado na disputa e batalhado pela reforma no Congresso, talvez tivéssemos hoje mais força e mais apoio popular para resistir. Estas sim são análises e críticas necessárias que o VI congresso do PT deve encarar.

Dizer apenas que abandonamos as reformas estruturais pela realização de um governo “melhorista” serve à luta interna, não à luta dos trabalhadores contra o golpe.

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