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sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Por favor, leiam e divulguem: Na minha avaliação é um dos melhores artigos dos ultimos tempos.

O álbum de fotografias do golpe
 
28/12/2015 02:00h
 
Vladimir Safatle
 
 
 
Quem ainda tinha dúvidas a respeito do Brasil estar diante de um golpe
travestido de impeachment viu, nesta última semana, uma série de
acontecimentos reveladores. Eles demonstram claramente como, no vazio do
fim da Nova República, seus antigos atores procuram alguma sobrevida, nem
que seja tomando o Palácio do Planalto de assalto.
Depois de anos operando nas sombras, o vice-presidente conspirador
resolveu transformar seu partido-ônibus, ou seja, esse mesmo partido em que
apertando sempre cabia mais um, em uma máquina monofônica organizada
para garantir que ele será, enfim, alçado à Presidência da República nos
próximos meses. Como o sr. Temer sabe que esta é a única e última
oportunidade da sua vida para sair das sombras em que o destino lhe colocou,
ele resolveu deixar às claras sua aliança com o sr. Cunha. Vimos então, nesta
semana, movimentos inacreditáveis para um partido acostumado à inércia:
seu líder da Câmara "moderado" foi deposto, suas portas foram fechadas para
o ingresso de políticos mais alinhados ao governo que ele quer derrubar. O
próximo passo será, ao que tudo indica, selar a ruptura em janeiro.
Então, como que por acaso, logo depois de descobrirmos que o sr. Delcídio do
Amaral operou fartamente esquemas de corrupção quando participava da
Petrobras no governo FHC, o PSDB, liderado pelo próprio ex-presidente em
seu momento Carlos Lacerda, declarou estar unido para o golpe. Não,
desculpe-me, na verdade não se trata de um golpe, mas de um impeachment
motivado principalmente pela indignação contra a corrupção que assola este
país na última década. De fato, ninguém melhor para liderar tal indignação do
que o partido de Geraldo Alstom Alckmin, de Marconi Carlos Cachoeira
Perillo, partido já comandado por pessoas do quilate de Eduardo Azeredo,
recém condenado a 20 anos de prisão por idealizar o mensalão. Mensalão
que, segundo o próprio Azeredo em entrevista para esta Folha em 2007,
abasteceu as contas de campanha... De quem? Sim, dele mesmo, do líder da
indignação moral nacional: o sr. Fernando Henrique Cardoso.
Mas, como se diz nos dias que correm, o impeachment é um instrumento que
precisa do povo na rua. E lá se foi o povo manifestar no domingo para dar a
consagração final à moralização nacional. Lá estava também o trânsfuga do
último "Toy Story", o Superpato da Fiesp e de seu presidente vitalício, que não
deixou de anunciar a esperada adesão dos empresários paulistas, ou do que
restou deles, ao golpe. Só que, vejam só vocês, a manifestação pró-golpe foi
menor do que a manifestação daqueles que a ele se opõem, realizada na
última quarta-feira (16). Ou seja, o argumento do "clamor das ruas" não vai
muito longe, será necessário inventar outro. Nada estranho, já que julgar o
governo Dilma uma das maiores catástrofes da história recente do país não implica, necessariamente, achar que tudo se ajeitará se tirarmos a
personagem da linha de frente para
conservar e aclamar
os velhos operadores de sempre.

Para terminar, no mesmo dia em que o STF decidiu conservar o sr. Cunha à
frente do processo de impeachment, a Procuradoria Geral da República pediu
seu afastamento do cargo de deputado por tentar, como nos bons tempos de
gângsteres, intimidar e constranger testemunhas no caso Petrobras.
É certo que este álbum de fotografias inacreditável de um golpe primário
mostra muito mais do que a inanidade da oposição e a inépcia do governo. Ele
mostra que as saídas para a crise não estão dadas nos marcos postos pela crise
atual. Se o governo conseguir sobreviver a este golpe, será difícil imaginar o
que restará depois. Este é um governo sem rumo, governo de uma
"conciliação" que nunca houve, vítima de suas próprias escolhas. Ele
continuará sem rumo e sitiado. Se, por sua vez, a oposição der o golpe, este
será só o começo de uma das mais profundas crises institucionais e sociais
que o país conhecerá. No poder, estará a mais crassa casta oligárquica à frente
de um governo ilegítimo, com poderes policiais e repressivos reforçados.
O que se coloca a nós é a tarefa enorme de pensar saídas a partir do
reconhecimento da verdadeira extensão dos problemas e do esgotamento das
práticas de governo da nossa república.
Como costumamos dizer em psicanálise, a primeira condição para sair do
problema é reconhecer seu verdadeiro tamanho.
 
 










































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