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quarta-feira, 25 de junho de 2014

Na Eurocâmaras, Lula critica o pessimismo com o nosso país
   Jornal GGN - A Eurocâmaras e a Câmara de Comércio França-Brasil realizaram ontem (24), em São Paulo, um evento que contou com a presença de Luiz Inácio Lula da Silva. Na ocasião, o ex-presidente demonstrou empolgação com a Copa do Mundo, criticou o pessimismo com o nosso país, defendeu a distribuição de renda como motor para o crescimento e falou sobre a importância do Brasil para a União Europeia e do Mercosul para o Brasil.

Sobre a Copa do Mundo

Descontraído, o ex-presidente Lula abriu o evento falando sobre a Copa do Mundo: “Eu espero que um dos países das Câmaras estrangeiras aqui presentes possa estar na final. Com a expectativa de que ninguém ouse levar a taça”.
Antes de subir ao palanque, o ex-presidente pediu à organização do evento que exibisse um vídeo de uma catadora falando sobre a Copa do Mundo. “Ela conquistou cidadania, consciência política”, disse. Então, citou Joãosinho Trinta quando respondeu às constatações de que a quadra da escola era um lugar luxuoso. “O povo gosta de luxo. Quem gosta de miséria é intelectual”.

Em seguida, rebateu as críticas pessimistas sobre a capacidade do Brasil de sediar o evento. “Nos últimos dois anos, foi criada uma expectativa negativa. As pessoas diziam, em relação à Copa, com a maior desfaçatez: ‘Não vai ter estádio, não vai ter aeroporto, não vai ter metrô, vai ter manifestações’. Agora, os mesmos jornais estão se rendendo: ‘É a melhor Copa do Mundo da história’”.
Incentivado por uma pergunta da plateia, Lula tornaria a tocar no assunto antes do fim do evento. “Eu não quero escolher adversário, só me importa que um dos times da final seja o Brasil. Mas qualquer time que ganhar, a Copa do Mundo já foi um sucesso, de público e de gols. Na Bahia, em três jogos foram 17 gols, mais do que toda a Copa dos Estados Unidos”, brincou. “A Inglaterra já está indo embora porque não está acostumada a jogar em estádios tão bons”.

Sobre a importância do Brasil para a União Europeia

Sem perder de vista as relações do Brasil no Mercosul, Lula defendeu a criação da União Europeia como um patrimônio da humanidade. “Imaginar que os países pudessem construir uma relação multilateral sem abdicar da soberania é uma aula de democracia”, afirmou.

Então, falou sobre os investimentos do Brasil na região durante o governo do PT. Disse que, apenas em 2013, o país fez aportes na casa de € 21 bilhões na União Europeia, com investimentos principalmente na Espanha e Portugal, e defendeu que o Brasil é o segundo maior investidor estrangeiro na região.

“Em 2002, tínhamos um fluxo [da balança comercial] de US$ 29 bilhões com a União Europeia. Hoje, temos um fluxo de US$ 99 bilhões”, detalhou. E afirmou que o Brasil atualmente só exerce de 20 a 30% do potencial de negócios que tem com a região.
Falou também sobre a inclusão social como motor do crescimento da economia. “O mundo rico precisa criar novos consumidores para continuar a crescer. Se quem hoje não tem nada começar a consumir, a economia vai dar um salto”.

Sobre a importância do Mercosul para o Brasil

Questionado se o Mercosul ainda representa uma oportunidade para o Brasil, ou se já se tornou um problema, Lula defendeu a importância estratégica de se fazer negócios com os vizinhos. “O Brasil tem 16 mil quilômetros de fronteiras com outros países da América Latina. Não dá pra gente ter fronteira com os países da América Latina e querer vender para os Estados Unidos. Temos que continuar valorizando nossos vizinhos”, respondeu.

De acordo com o ex-presidente, o Brasil tem uma responsabilidade com a região e o Mercosul. “Às vezes, precisamos fazer coisas menores do que gostaríamos, mas fazemos porque, como maior economia e maior população, queremos trazer eles conosco. Eu estou convencido de que o crescimento do Brasil será junto com a América do Sul”, admitiu.

“A América Latina tem um PIB de quase US$ 6 tri. Quando eu me aproximei da América Latina falaram que eu era maluco, que eu devia me aproximar da Europa. Mas a Europa só queria me vender, não queria me comprar”, disse.

“Se estivéssemos aqui seis anos atrás, vocês me diriam que a Bolívia não vai dar certo, que aquele índio não tem competência. Hoje a Bolívia tem o maior período de tranquilidade democrática dos últimos tempos, eles têm US$ 15 bilhões de reserva”, defendeu.

Sobre a prioridade em políticas sociais do governo brasileiro

Lula voltou a afirmar o compromisso do governo do PT de priorizar políticas sociais. “O Bolsa Família hoje é apontado pela ONU como o maior programa de transferência de renda do mundo. O Bolsa Família tem que estar no orçamento da União”, disse.

Além disso, falou sobre a manutenção da inflação com baixos índices de desemprego e boa remuneração. “Vocês se lembram que neste país diziam que não podia aumentar o salário mínimo por causa da inflação. Nos últimos 12 anos, aumentamos o salário mínimo em 72% e geramos 20 milhões de empregos formais. O chamado mundo desenvolvido fechou as portas para 62 milhões de postos de trabalho. Controlar a inflação com desemprego é fácil, mas controlar a inflação com emprego e aumento de salário é pouco usual”.

De acordo com Lula, nos últimos anos, a renda da sociedade brasileira cresceu 35% e a renda dos mais pobres cresceu 70%. “Nós vamos levar a inflação para dentro da meta distribuindo renda”, afirmou.

Sobre os problemas logísticos advindos da ascensão da classe C, Lula comentou: “Tem gente incomodada que o povo tá andando de carro. Eu passei a vida inteira fabricando carro, eu não tenho o direito de ter um? Os prefeitos que construam mais ruas. Eu não vou olhar na cara do pobre e dizer que ele não pode ter carro. Ele pode ter tudo que tiver capacidade de produzir”.

Ele também falou sobre o aumento na concessão de crédito. De acordo com o ex-presidente, em 2002 foram disponibilizados R$ 380 bilhões de crédito, versus R$ 2,7 trilhões atualmente. “Uma vez me perguntaram se eu era comunista ou socialista, eu respondi: ‘eu sou torneiro mecânico’. Eu nunca fui comunista, mas um país capitalista não pode crescer sem capital. Nós criamos crédito para as pessoas, para o grande, para o médio e para o pequeno. Hoje, cooperativas de catadores pedem empréstimos para o BNDES ao lado de grandes empresários. E o BNDES tem inadimplência zero”.

O ex-presidente destacou a inclusão dos brasileiros no sistema financeiro. “Em 2002, 70 milhões de brasileiros tinham conta bancária. Hoje são 120 milhões. Mais 50 milhões de pessoas. Colocamos uma Colômbia e um Paraguai juntos no sistema financeiro”.

Por fim, Lula falou sobre como a inclusão social é boa para a economia. “Quando fizemos o Luz para Todos fomos criticados, ‘de novo o pobre, o Lula só pensa no pobre’. Mas quando chegou a luz na casa do pobre, 80% comprou televisor, 70% comprou geladeira. O que aconteceu foi que as empresas ganharam dinheiro”.

Sobre os investimentos em educação

Respondendo às críticas de governo assistencialista, Lula falou sobre os investimentos realizados em educação. “Nós conseguimos que 70% dos royalties do petróleo vão para a educação. Abrimos 18 universidades federais, 365 escolas técnicas, mais o Prouni, mais o Reuni, além do Ciência sem Fronteiras”, detalhou. “O Brasil levou quase um século para chegar em três milhões de jovens matriculados em universidades. Nós, em 12 anos, chegamos em sete milhões”.

Adiantou, então, que a presidente Dilma vai anunciar, em breve, um novo programa de valorização da ciência e tecnologia, mas não deu detalhes. Depois, perguntado sobre o assunto, o presidente defendeu o programa como solução para o problema de produtividade que aumenta o Custo Brasil e atrapalha a competitividade.

Sobre o pessimismo do empresariado

Lula demonstrou muito otimismo com os rumos do Brasil e rebateu diversas críticas feitas ao país. “Eu imagino que as pessoas não têm muita noção, ou não querem ter, sobre as coisas no Brasil. O Brasil não é mais aquele paisinho 18ª economia do mundo, 12ª economia do mundo, que só saía em foto da Candelária. O Brasil pode ser a 5ª maior economia do mundo em pouco tempo”, constatou.

E então deu uma série de dados atualizados, sempre perguntando ao final “Quantos países têm indicadores como esses?”, “Em que outro país do mundo isso aconteceu?”,
“Que outra economia teve um desempenho como o nosso?”.

Segundo Lula, nossas reservas atuais correspondem a 18 meses de exportações, a dívida líquida foi reduzida e a dívida bruta estabilizada, a inflação está dentro das metas. “Qual foi o país que ergueu praticamente do zero uma indústria naval que hoje já emprega 80 mil pessoas?”, “Que outra economia emergente tem uma matriz tão limpa e diversificada?”, “Dos emergentes, quem conseguiu levar energia para 30 milhões de casas?”, “O fluxo da balança comercial era de US$ 107 bilhões em 2007, hoje, é de US$ 482 bilhões. E se não fosse a crise estaria na casa de US$ 600 bilhões”, “O superávit primário médio é de R$ 3,58 bilhões. Nenhum país do mundo produziu isso”.

O ex-presidente ainda sabe vender muito bem o Brasil. Ao final da apresentação de quase uma hora, o público presente aplaudiu de pé. 

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