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quinta-feira, 29 de maio de 2014

Para não dizer que não falei das flores

Janio de Freitas

Muito à vontade.


A definição de Eduardo Campos contra qualquer mudança na Lei da Anistia, para
possível punição legal de criminosos da repressão, divide-se em duas partes bem
distintas. Na primeira, o pré-candidato à Presidência adota o chavão dos militares
acusados de tortura, assassinatos e desaparecimentos: "Acho que a Lei da Anistia
foi para todos os lados. O importante agora não é ter uma visão de revanche". Na
segunda, Eduardo Campos reforça, por um dado pessoal, a sua identificação com
aqueles militares: "Falo isso muito à vontade porque a minha família foi vítima do
arbítrio".
Uma das maiores vítimas imediatas do golpe em 1964 foi Miguel Arraes, então
governador de Pernambuco. Retirado do palácio sob a mira de armas, Arraes foi
preso e, depois dos maus-tratos esperáveis, deportado para a ilha de Fernando
Noronha como prisioneiro sem condenação e sem prazo. Quando, afinal, pôde
voltar ao continente e à vida civil, a iminência de nova prisão levou-o a asilar-se e
daí ao exílio.
Eduardo Campos é neto de Miguel Arraes. Por isso diz estar "muito à vontade"
quando subscreve o pretexto da "anistia para os dois lados". Nas duas condições,
está, portanto, desafiado a indicar os crimes de que seu avô foi anistiado. Os crimes
cuja anistia justifica, no que lhe cabe, a anistia do lado dos que o prenderam depois
de o derrubarem do governo conquistado pelo voto e exercido com o que sempre
se achou ser impecável dignidade.
No exterior, residente na Argélia e depois na França, Arraes integrou a oposição
ativa à ditadura brasileira. É possível que, do ponto de vista de Eduardo Campos,
oposição ao regime dos generais ditadores fosse prática criminosa, como os
próprios consideraram. A identificação de Eduardo Campos com o pretexto usado
pelos militares reforça tal hipótese. A ser assim, porém, sua pretensão a concorrer
à Presidência de um regime democrático não poderia ser vista senão como farsa.
Farsa perigosa, como sugerem as identificações que exibe.
Não menos sugestivo é que esse mesmo Eduardo Campos integra, com os seus
conceitos, o Partido Socialista Brasileiro. Vê-se que aprecia essa coisa de "para
todos os lados". Mas, se não tem fatos a narrar que justifiquem a anista de Arraes
como compensação para a anistia do "outro lado", então Eduardo Campos está
manchando a história de um homem honrado. Da qual e do qual até agora só tirou
foi e não seria o que é.proveito: sem ambas, não se sabe o que seria, mas por certo não teria sido o que já 

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