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sexta-feira, 13 de julho de 2012

Os vencedores na nova economia

Matéria do Jornal Valor Econômico de 13/07/2012
Por Dani Rodrik

Meu comentário:


Enfim uma análise sobre a economia mundial isenta e caucada na realidade.

Nos últimos tempos os articulistas de economia do PIG da velha mídia e alguns arautos da oposição do quanto pior melhor, pregam diariamente uma visão catastrófica sobre a situação da economia do Brasil.

Reconhecemos que o momento é delicado, mas, apesar das dificuldades do quadro mundial na economia, o Brasil não se encontra no fundo do poço como alguns tentam passar para a opinião pública.

 

A economia mundial defronta-se com considerável incerteza no curto prazo. Conseguirá a zona do euro resolver seus problemas e evitar uma ruptura? Será que os EUA criarão um caminho de retomada do crescimento? Será que a China encontrará uma maneira de reverter sua desaceleração econômica?

As respostas a essas indagações determinarão como a economia mundial evoluirá ao longo dos próximos anos. Mas, independentemente da forma como esses desafios imediatos venham a ser resolvidos, é evidente que a economia mundial está também entrando em uma difícil fase de longo prazo - uma era que será substancialmente menos receptiva ao crescimento econômico do que, possivelmente, qualquer outro período desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

Independentemente de como enfrentem suas dificuldades atuais, a Europa e os EUA sairão (da crise) com dívida elevada, baixas taxas de crescimento e política interna contenciosa. Mesmo no melhor dos cenários, em que o euro permaneça intacto, a Europa ficará emaranhada na árdua tarefa de reconstruir a sua esgarçada união. E, nos EUA, a polarização ideológica entre democratas e republicanos continuará a paralisar a política econômica.

De fato, em praticamente todas as economias avançadas, elevados níveis de desigualdade, tensões sobre a classe média e o envelhecimento da população alimentarão conflitos políticos num contexto de desemprego e escassez de recursos fiscais.

À medida que essas velhas democracias cada vez mais se voltarem para dentro, irão tornar-se parceiras internacionalmente menos proveitosas - menos dispostas a manter o sistema de comércio multilateral e mais tendentes a reagir unilateralmente a políticas econômicas de outros países que percebam como prejudiciais a seus interesses.

Por outro lado, é improvável que os grandes mercados emergentes, como a China, a Índia e o Brasil, preencham o vazio, pois permanecerão empenhados em proteger suas soberania nacional e margem de manobra. Como resultado, as possibilidades de cooperação mundial sobre questões não apenas econômicas ficarão mais distantes ainda.

Esse é o tipo de ambiente mundial que reduz o potencial de crescimento de cada país. Muito provavelmente, não veremos um retorno ao tipo de crescimento que o mundo - especialmente o mundo em desenvolvimento - experimentou nas duas décadas anteriores à crise financeira. É um ambiente que produzirá profundas disparidades de desempenho econômico em todo o mundo. Alguns países resultarão muito mais prejudicados do que outros.

Os que se verão em situação relativamente melhor compartilharão três características. Primeiro, não ficarão pressionados por níveis elevados de dívida pública. Segundo, não ficarão excessivamente dependentes da economia mundial e seu motor de crescimento econômico será interno, em vez de externo. Finalmente, serão democracias robustas.

Ter níveis de baixos a moderados de dívida pública é importante, porque níveis de endividamento de 80% a 90% do PIB vão tornar-se um empecilho grave ao crescimento econômico. Eles imobilizam a política fiscal, produzem graves distorções no sistema financeiro, desencadeiam embates políticos em torno de tributação e incitam dispendiosos conflitos distributivos. É improvável que governos preocupados com redução de endividamento realizem os investimentos necessários para mudanças estruturais de longo prazo. Com poucas exceções (como a Austrália e a Nova Zelândia), a grande maioria das economias avançadas do mundo estão, ou estarão em breve, nessa categoria.

Muitas economias de mercado emergentes, como Brasil e Turquia, dessa vez conseguiram conter o crescimento da dívida pública. Mas não impediram uma farra de empréstimos no setor privado. Uma vez que as dívidas privadas costumam se transformar em passivos públicos, uma baixa carga de endividamento público poderá, na realidade, não assegurar a esses países o amortecedor que julgam ter.

Os países que dependem excessivamente de mercados e de recursos financeiros mundiais para alimentar seu crescimento econômico também ficarão em desvantagem. A frágil economia mundial não será amistosa em relação a grandes devedores líquidos estrangeiros (ou grandes credores líquidos estrangeiros). Países com grandes déficits em conta corrente (como a Turquia) permanecerão reféns do ânimo arisco do mercado. Países com grandes superávits (como a China) ficarão sob pressão crescente - inclusive ameaças de retaliação - para conterem suas políticas mercantilistas.

Crescimento puxado por demanda doméstica será uma estratégia de crescimento mais confiável do que o gerado por exportações. Isso significa que países com um grande mercado interno e uma classe média próspera terão uma vantagem importante.
Finalmente, as democracias terão melhor desempenho, porque dispõem de mecanismos institucionalizados de negociação de conflitos, não disponíveis em regimes autoritários.

Democracias como a Índia podem parecer, em determinados momentos, mover-se muito lentamente e serem propensas à paralisia. Mas proporcionam espaços para consultas, cooperação e negociação de compromissos entre grupos sociais antagônicos, cruciais em momentos de turbulência e de choques.

Na ausência de tais instituições, conflitos distributivos podem facilmente transbordar para uma forma de manifestações de protesto, distúrbios nas ruas e desordem civil. É nisso que as democráticas Índia e África do Sul levam vantagem sobre a China ou a Rússia. Países que caíram nas garras de líderes autocráticos - como a Argentina e a Turquia - estarão também em desvantagem cada vez maior.

Um importante indicador da magnitude dos desafios da nova economia mundial é que poucos países satisfazem os três requisitos. De fato, algumas das mais espetaculares histórias de sucesso econômico de nosso tempo - a da China, em especial - não cumprem mais de um dos requisitos. Será um momento difícil para todos. Mas alguns países - como o Brasil, a Índia e a Coreia do Sul - estarão em posição melhor do que os demais. (Tradução de Sergio Blum)

Dani Rodrik professor de Economia Política Internacional na Universidade de Harvard, é autor de "The Globalization Paradox: Democracy and the Future of the World Economy (O paradoxo da globalização: a democracia e o futuro da economia mundial). Copyright: Project Syndicate, 2012.

www.project-syndicate.org

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