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terça-feira, 29 de novembro de 2011

PT e PSB: onde vamos chegar?

Não são apenas laços eleitorais que unem PT e PSB. Temos uma aliança ideológica de esquerda, um projeto em comum para o país e relações políticas que remontam à primeira disputa presidencial de Lula, em 1989, quando o PSB indicou José Paulo Bisol para vice na chapa.

Como dizia Leonel Brizola, essa é uma história que vem de longe.

Nas últimas semanas, porém, tem crescido um movimento que aponta o PSB como principal adversário do PT nas eleições de 2012 e 2014. Sinceramente, não sei onde os que patrocinam essa tática, do nosso campo, querem chegar. Que aumente a disputa entre os partidos da base, agora que a oposição está em profunda decadência, me parece perfeitamente aceitável. Mas será que esses partidos, principalmente os de esquerda, como o PSB, querem mesmo se enrolar no xale da louca, unindo-se à direita no abraço dos afogados?

Em Pernambuco, por exemplo, qual a vantagem de desfazer uma aliança exitosa para se diluir em torno do que não tem nem projeto nem voto? Nenhuma, na minha opinião. Se alguém duvida, é só ver o desempenho de PSDB, DEM e PPS no Estado nas últimas três eleições.

Os socialistas pernambucanos não podem esquecer que o apoio e o compromisso do PT foram decisivos tanto na eleição quanto na reeleição do governador Eduardo Campos (em 2006 e 2010). Ainda que Eduardo seja uma grande liderança política, à altura do avô Miguel Arraes, tenho dúvidas se o PSB, sozinho, chegaria a algum lugar.

É certo que em 2006 lançamos Humberto Costa no primeiro turno. Mas essa divisão inicial se deu em sintonia com o projeto nacional, num jogo aberto e combinado desde o início, em que os dois candidatos, de forma inédita, dividiram o mesmo palanque ao lado do presidente Lula, então concorrendo à reeleição.

O que se vê agora na sucessão do prefeito João da Costa, em Recife, com o PSB emitindo sinais de que pretende ir para a disputa contra nós no primeiro turno, é bem diferente. Primeiro, porque não faz sentido do ponto de vista da aliança político-administrativa que consolidamos na cidade e no Estado, com bons resultados para os partidos e para a população. Segundo, porque, como tenho dito, é preciso respeitar a prerrogativa política e o direito constitucional de João da Costa concorrer à reeleição.

Infelizmente, porém, a vaidade e os projetos pessoais tem dado corda a um movimento que tenta desconstruir a administração do prefeito – com um lamentável fogo amigo fornecendo munição à artilharia inimiga. Quando digo “fogo amigo” estou me referindo a importantes lideranças do PT e do PSB, muitos agindo na penumbra. Mas quem conhece bem a política sabe identificar as sombras, mesmo não aparecendo as faces.

A disputa interna entre nós, petistas, existe e será resolvida democraticamente, como sempre acontece no PT. Mas é equivocado o argumento daqueles que usam esse desentendimento momentâneo para justificar o fim da Frente. Se fosse assim, ninguém seria aliado de ninguém, porque todos os partidos tem suas disputas, e o PSB com certeza não é exceção.

Da mesma maneira, todo partido tem o direito de construir seu legado e de fazer suas opções eleitorais. Mas é preciso ter em mente que, entre direitos e deveres, se as coisas não forem coletivamente acordadas, corre-se o risco do fracasso, não só dos projetos administrativos, políticos e ideológicos, mas também das próprias legendas.

Pode ser que, num determinado momento, não seja mais possível manter a aliança PT/PSB. Mas estou convicto de que isso ainda está longe de acontecer. Essa ainda é uma aliança possível e necessária, tanto para as forças de esquerda quanto para o Estado e o país – inclusive no que se refere ao governo da presidenta Dilma e à sua reeleição.

Portanto, as cabeças pensantes não podem, em nome de interesses menores, simplesmente jogar esse acúmulo nas águas da praia de Boa Viagem. Ao contrário, deveriam usar seu capital político para distensionar o processo.

Enquanto isso, no Ceará...
Estou falando de Pernambuco, mas poderia também citar o caso do Ceará, onde a proximidade das eleições municipais ameaça provocar turbulências na aliança que temos com os Ferreira Gomes, dos irmãos Cid e Ciro (ambos PSB), desde 2004.

Tal como em Pernambuco, no Ceará participamos do governado estadual, comandado por Cid Gomes, e o PSB participa da prefeitura petista de Fortaleza, comandada por Luizianne Lins. E não há razões políticas suficientemente fortes para um rompimento em 2012. No entanto...

No entanto, a cena se repete. Nesse caso, o porta-voz da discórdia está claramente identificado na figura do ex-ministro (e também ex-governador) Ciro Gomes, meu amigo político de longa data, e a quem admiro pela personalidade e pela firmeza.

Recentemente, Ciro voltou a soltar suas baterias contra o PT em entrevistas a dois veículos de comunicação. Nelas, entre outros temas, aventou o fim da aliança PT-PSB, tanto no nível regional quanto no nacional. De um lado, ele acusa o PT de praticar o hegemonismo na relação com os aliados. De outro, de ter se entregue em demasia ao jogo do aliancismo fisiológico. Habilmente, chega a dizer que se sente um “petista frustrado”.

A avaliação de Ciro do quadro geral da política tem muitos méritos, entre eles o de tocar em problemas concretos da nossa democracia ainda em construção. E que merecem, mais uma vez, uma profunda reflexão sobre a necessidade de uma reforma política que fortaleça os partidos e os projetos coletivos – e que limite as disputas eleitorais a legendas claramente identificadas no espectro ideológico, ou seja, pela configuração atual, a seis ou sete agremiações.

Sem isso, Ciro não tem o direito de sentir-se “frustrado” com o PT. Ele sabe que, no contexto do sistema político nacional, a esquerda sozinha, infelizmente, não tem força para fazer as mínimas reformas de que o país precisa. Tanto sabe que, quando candidato a presidente da República em 2002, buscou alianças com partidos e líderes regionais que tinham total identificação com a velha direita da política tradicional, entre eles o então senador Antonio Carlos Magalhães e família Sarney. Isso depois de dizer, em 1999, que ACM era "sujo que só pau de galinheiro".

Talvez a frustração de Ciro seja de outro nível e esteja mais ligada ao PSB do que ao PT, mas isso não vem ao caso.

A acusação de hegemonismo também não procede e Ciro também sabe disso. Se não sabe, sugiro que olhe para o Piauí (que fica ao lado do Ceará), onde o PT, depois de oito anos no governo do Estado, apoiou a candidatura de Wilson Martins, do PSB, para a sucessão do petista Wellington Dias – e sem reivindicar absolutamente nada em troca.

Não nasci ontem. Para além de falsas frustrações e pretensos desentendimentos, algumas lideranças do PSB estão claramente montando uma jogada cujo objetivo é enfraquecer o PT nos Estados em que os socialistas são governo – colocando o peso das máquinas estaduais para tirar proveito das disputas municipais.

É legítimo? É. Mas não é a melhor política. Sobretudo porque, juntos, ainda temos muito que fazer por Pernambuco, pelo Ceará e pelo Brasil.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Recordando as Caravanas da Cidadania

Na terça-feira (22) foi ao ar pela TVT (www.tvt.org.br) o programa Memória e Contexto sobre as Caravanas da Cidadania, que eu, o companheiro Lula e dezenas de outras pessoas realizamos entre 1993 e 1996. No programa, eu e o jornalista Vitor Nuzi, que participou de uma das viagens, contamos algumas histórias dessa grande aventura quem nos fez conhecer melhor o Brasil. Abaixo, a íntegra do programa, dividida em quatro vídeos.


quinta-feira, 17 de novembro de 2011

PT: tempos de renovação

Publico abaixo a entrevista que concedi à reporter Tatiana Carlotti, do Blog do Zé Dirceu, durante o 2º Congresso da Juventude do PT, que aconteceu em Brasília entre os dias 12 e 15 de novembro:

A luta por maior participação dentro do PT sempre foi uma bandeira – mais do que legítima - da nossa juventude. Em setembro deste ano, durante o IV Congresso Nacional do partido, uma emenda apresentada por Francisco Rocha, o Rochinha, dirigente nacional e coordenador da Construindo um Novo Brasil (CNB), atendeu a essa reivindicação dos nossos jovens por mais espaço nos quadros da legenda.

Conhecida como “emenda Rochinha”, a proposta foi aprovada e tornou obrigatória a cota de 20% de jovens nas instâncias partidárias. Durante o II Congresso da JPT, encerrado no 15 de novembro, Rochinha concedeu uma entrevista exclusiva a este blog para explicar a importância da renovação para a vida partidária.

Que motivos te levaram a apresentar a emenda que amplia a participação da juventude no partido?


[ Rochinha ]  Após muitos anos na direção do partido, passando por diferentes etapas em vários órgãos do PT, eu não poderia chegar aos 60 anos, sem cumprir com minha responsabilidade de fazer com que o partido aproveitasse o momento dessa segunda geração de militantes. E, também, que por meio de seu estatuto – responsável pelas regras de formação das instâncias partidárias – garantisse, de fato, um percentual de representatividade da juventude, no puro sentido de sua idade.

Os jovens estão prontos para esse desafio?

[ Rochinha ] Se a justiça eleitoral já lhes dá o direito de votar aos 16 anos, eles não só têm o direito, mas a obrigação de fazer parte da direção do seu partido. Lógico que esse jovem precisa ter um período de preparo para estar à frente dessa grande responsabilidade. Outro ponto é que, hoje, com os avanços dos meios de comunicação e, também, diante da participação efetiva de vários setores - das mulheres, negros, índios, entre outros - sobretudo, depois dos oito anos do governo do presidente Lula, estava mais do que na hora de o PT fazer, também, sua renovação pelo estatuto partidário.

A partir da medida, como você imagina o PT no futuro?

[ Rochinha ]  Se tivermos unidade, com certeza, na preparação e gestão do próximo Processo de Eleições Diretas (PED),  contaremos, no mínimo, 16 jovens. E assim será nos demais PEDs. Daqui para frente, o partido, em sua grande maioria, estará formado por militantes na faixa dos 40 aos 45 anos, jovens ainda. Teremos, portanto, uma profunda renovação em um PT que realmente veio para renovar. E isso serve de exemplo para os demais partidos do país e para o mundo inteiro.

Quanto à formação desses jovens, como você avalia esse processo?

[ Rochinha ] A formação é outro grande desafio do PT. E, não é de hoje. Sobretudo, a formação política. Ela é um processo que precisa se adequar à realidade. Não é só a formação do ponto de vista da ideologia, mas formação em termos de companheirismo, de participação efetiva e não só do filiado exclusivamente, mas uma formação que abarque vários setores e que extrapole a militância petista.

Hoje, a participação da juventude na direção do partido vai fazer com que esse processo de formação vá além da seara partidária. Tenho dito isso todo o tempo, inclusive escrevi um artigo (leia). É preciso que a juventude do PT saia a campo. Que não fique focada simplesmente nos centros acadêmicos. Que os jovens petistas entrem na discussão junto com o jovem operariado nas fábricas, bancários, comerciários, faxineiros, enfim, ao lado de todos os que estão na faixa de 16 a 29 anos de idade.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

A juventude do PT e o futuro do Brasil


Em três décadas de existência, o PT tem demonstrado vitalidade para enfrentar e superar os desafios que se colocam diante do partido, seja na organização interna, seja no contexto maior da construção da democracia no país.

Estamos agora diante do desafio da renovação, da abertura para as novas gerações. Por mais importantes que tenham sido e ainda sejam aqueles que, como eu, estão nessa briga desde o início, não se pode negar o fato de que as pessoas (e às vezes também as ideias) envelhecem.

Bandeiras e convicções históricas, aquelas que nos identificam e fortalecem, devem sempre ser reafirmadas. Mas é preciso investir em novos quadros, descobrir novas perspectivas, apostar em novos sonhos, trazer efetivamente ao debate quem está chegando agora, para que o partido, este sim, não envelheça, para que continue antenado com os anseios da sociedade brasileira, uma sociedade em permanente transformação, sobretudo após os oito anos de governo no presidente Lula.

Nosso 4º congresso extraordinário, realizado em setembro, mostrou que o conjunto do PT, de suas lideranças e de suas bases, está consciente deste desafio, aprovando reformas internas que, para a realidade política brasileira, podem ser consideradas revolucionárias. A principal delas, em minha opinião, foi o estabelecimento da chamada cota geracional para as instâncias decisórias do partido – o que garantiu a participação de 20% de jovens entre 16 e 29 anos em todos os níveis de direção.

Um grande avanço. Mas este é um desafio de mão dupla, porque passa também pelo amadurecimento político de uma garota que, até aqui, tem gasto energia excessiva em disputas horizontais, dentro dos espaços próprios da juventude, principalmente, como não poderia deixar de ser, no movimento estudantil.

É hora de os jovens do PT começarem a alargar seus horizontes –para conduzir o partido de fato e também para ampliar o diálogo com parcelas importantes da juventude brasileiraque se identificam com nosso projeto geral, mas não se reconhecem no dia-a-dia da militância partidária ou da intervenção política organizada. Entre estes estão os trabalhadores das fábricas, do comércio e do campo, ligados ou não a entidades como CUT, Contag,Fetraf, MST e outros.

Com grande satisfação, vejo que esse movimento já começa a acontecer. Três meses depois do congresso do partido e às vésperas do 2º Congresso da JPT, que vai definir a nova direção da secretaria, os jovens da corrente que ajudo a organizar, a CNB, deram uma grande prova de amadurecimento político ao escolher seu candidato por consenso, após um longo processo de debate, diálogo e, sobretudo, respeito entre as pessoas e grupos em disputa.

Numa democracia amadurecida, é essencial que os atores reconheçam a legitimidade dos diferentes interesses em jogo. Dentro do mesmo campo político (como é o caso de todos os que militam no PT), o ideal é que se busque sempre o máximo de consenso, fortalecendo a unidade e guardandoas energias para queimá-lasno embate maior com as demais forças sociais e políticas do país.

Faço votos para que, durante o 2º congresso da JPT, que começa no sábado, dia 12, todasas correntes internas do partido e seus delegados, eleitos democraticamente nas bases, caminhem no sentido de um amplo entendimento, de maneira que a juventude do PT saia do processo ainda mais fortalecida, em condições de dar conta do desafio histórico colocado diante dela, qual seja: tomar o leme do partido, segurá-lo com firmeza e trabalhar para que o Brasil siga avançando no rumo iniciado por aqueles que, como eu, daqui a pouco estarão se aposentando.

Que as discussões do encontro sejam pautadas por temas de abrangência nacional, com conteúdo político e programático.

A todos e todas, desejo um bom congresso.