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terça-feira, 5 de outubro de 2010

Como conquistar uma vitória que é certa

Alguns instrumentos são fundamentais para se obter bons resultados num enfrentamento eleitoral. O mais importante deles é a força do partido, sua capilaridade, seu grau de unidade interna, a capacidade política de seus quadros dirigentes e o envolvimento de sua militância.

O PT sempre teve tudo isso, às vezes mais, às vezes menos. Na presente campanha eleitoral, teve também (e tem ainda) outros importantes instrumentos, como a liderança do presidente Lula, a boa avaliação do governo e uma ampla coligação partidária.

São estas as razões que fizeram com que nosso partido obtivesse um grande resultado eleitoral no último domingo (3). Elegemos quatro governadores, podendo chegar a seis; passamos de oito para 14 senadores, podendo chegar a 15; e fizemos a maior bancada da Câmara Federal.

Uma grande vitória política, sem dúvida, mas que para muitos teve sabor de derrota pelo fato de Dilma não ter ganhado no primeiro turno. Ficou realmente faltando isso para que a vitória fosse completa. Mas precisamos ter cabeça fria para analisar os resultados, fazer nossa autocrítica e definir (ou redefinir) as estratégias a partir de agora.

Adversidades
Temos de lembrar que concorremos com forças poderosas e que uma eleição presidencial é algo sempre muito complexo. Estamos falando de um país continental que tem 135 milhões de eleitores, boa parte deles sem acesso às informações do processo político-eleitoral – o que faz com que, muitas vezes, questões laterais acabem ganhando o centro do debate e embaralhando a cabeça das pessoas.

Nestas eleições, por exemplo, as questões que realmente interessam ao país foram encobertas pelo clima de denuncismo e moralismo criado por grande parte da mídia durante toda a campanha. Assistimos a muita demagogia e enfrentamos ataques do mais baixo nível repercutidos por vários candidatos do PSDB – o que sem dúvida barrou nossa vitória no primeiro turno.

Por outro lado, nossa candidata obteve 47 milhões de votos e ficou a apenas 3 pontos de vencer no domingo. Juntando esse desempenho aos números do quadro geral, eu diria que não temos, em hipótese alguma, o direito de nos sentirmos derrotados.

Mas precisamos, sim, fazer uma rigorosa autocrítica, até porque temos uma disputa duríssima pela frente e não podemos repetir alguns erros.

Plano B
Quero dizer aqui com todas as letras: a campanha presidencial nunca teve um Plano B. Embora soubéssemos com antecedência que enfrentaríamos todo tipo de ataque, nossa militância não foi mobilizada nem preparada para fazer o embate direto com clareza e objetividade.

Faltou até agora, nessas eleições, uma direção que fizesse a conexão entre a campanha nacional e a militância de base. Em vários Estados, as direções se dedicaram única e exclusivamente aos processos locais e não se reuniram para discutir os passos estratégicos da disputa presidencial.

Marina
Da mesma forma, prestamos pouca atenção à força do discurso da ex-candidata Marina Silva. Nós sabíamos exatamente quais seriam suas propostas e tínhamos como debater em pé de igualdade, até porque refletiam questões travadas anos a fio dentro do governo e do próprio PT – ao qual ela esteve filiada por três décadas.

Mas nos calamos, possivelmente porque acreditamos em excesso na tese de que esta seria uma eleição meramente plebiscitária. E demoramos a perceber que, na verdade, havia três candidatos com grande capacidade de interlocução junto à sociedade.

Sem jamais ser exposta ao contraditório de suas propostas, Marina passou a ser elogiada (em alguns momentos, até endeusada) por aquela parcela da mídia que via nela a chance de levar Serra ao segundo turno – a mesma mídia que antes a chamava de “atrasada” e de “inimiga do crescimento”.

Agora que se inicia o segundo turno, temos obrigação de retomar e aprofundar esse debate, mostrando nosso compromisso com o desenvolvimento sustentável e, mais do que isso, as inúmeras ações de nosso governo em defesa do meio ambiente – em acordo com as propostas históricas do PT e dos milhares de militantes dessa área que continuam engrossando as fileiras do partido.

Isso terá um papel importante na definição de apoios nessa nova etapa, já que nosso opositor deverá se apropriar das bandeiras da ex-candidata – ainda que o faça com a demagogia de sempre – na tentativa de conquistar os eleitores dela.

Temas polêmicos
Não temos por que continuar fugindo de temas polêmicos. Queiramos ou não, eles fazem parte do dia-a-dia da vida das pessoas. Não precisamos trazê-los para o centro da disputa, mas temos de encará-los, seja no discurso, seja nos debates, seja no programa de televisão. Tudo sendo feito, evidentemente, com responsabilidade e no tempo certo.

Alguns desses temas já surgiram no primeiro turno e com certeza surgirão outros a partir de agora, verdadeiros ou inventados – como os boatos infames sobre defesa do aborto e fechamento de igrejas evangélicas.

Nesse campo temos de agir com total transparência.

Um dos principais méritos do governo Lula tem sido o encaminhando democrático de temas que não encontram consenso na sociedade. A população sabe disso. Não faz sentido, portanto, temer o debate sobre estes temas se eles vierem à tona.

Próximos passos
Nesse segundo turno, temos que aproximar muito mais a militância do PT e dos aliados da campanha da candidata, incluindo aí a participação direta dos movimentos sociais e de todos os setores da sociedade.

Precisamos também manter mobilizados os comitês dos candidatos que encerram as eleições no domingo, eleitos ou não, colocando suas estruturas a serviço da candidatura Dilma.

No debate de idéias, temos de investir na ênfase à construção de políticas públicas em vários setores, em especial o meio ambiente, e aprofundar a comparação entre os 8 anos de Lula e os 8 de FHC – lembrando não só das privatizações, mas de todas as políticas e ações que tornaram o Brasil mais justo, mais democrático, mais desenvolvido e, principalmente, mais respeitado em todo mundo.

A comunicação é outro ponto que precisa ser melhorado, agindo com mais firmeza no contra-ataque à guerra suja que se desenvolve na internet e acaba ganhando as ruas. A campanha concentrou demais sua estratégia nos mecanismos de comunicação de massa. Precisamos melhorar, e muito, nosso relacionamento com as redes sociais que apóiam Dilma.

Para que estas e outras questões se concretizem é fundamental um comando forte e ágil, que tenha capacidade de articular rapidamente o enfrentamento político.

É bom lembrar que temos apenas 25 dias de campanha. Agora é tudo ou nada. Não dá pra jogar fora, por conta de erros facilmente resolvíveis, os sonhos de muitas e muitas gerações que começaram a se concretizar depois que o PT chegou ao poder.

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